Análise de textos e imagens, apresentações de aulas e um pouco da minha mistura de tudo.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Convite à Viagem - Charles Baudelaire
Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.
Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.
Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.
Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?
Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.
Texto lido no livro "O Espaço na Poesia e Pintura através do Ponto de Fuga" (Marshall Macluhan e Harley Parker)
terça-feira, 3 de maio de 2011
Comunicação e Cultura: o processo de recepção
Resenha: Comunicação e Cultura: o processo de recepção.
Valério Cruz Brittos (UNISINOS)
• Estudos em desenvolvimento na América Latina sobre as mediações no processo de recepção e as relações entre comunicação e cultura.
• Principais idéias em desenvolvimento na pesquisa:
• Foco no processo de mediação e no ser humano como consumidor, não nos meios de comunicação.
• O consumidor parece distinto do que já se pensou, como ser passivo, apático e indefeso diante da mídia, que simplesmente assimila a informação e aceita a idéia. Com o acesso a informação de maneira expressiva, a pessoas mais bem informadas sabe das suas próprias exigências e necessidades ao consumir algum produto ou serviço.
• A mensagem não tem o mesmo efeito em todos os públicos.
“A recepção não é um estado consensual” – é uma zona de conflitos entre “o hegemônico e o subalterno, as modernidades e as tradições, entre as imposi;coes e apropriações.
• Comparação e tentativa de “igualar” cultura e comunicação.
“O que é transmitido pelos meios de comunicação é cultura”
• A cultura está na mídia porque está também e principalmente fora dela.
Não há linearidade no processo de recepção
“O processo de mediação estrutura a percepção de toda realidade social.”
• O conceito de hegemonia de Gramsci: “O sentido não é imposto, mas negociado”
• A produção cultural dos meios ataca o que é de mais puro e também incorpora valores culturais populares.
“No jogo das mediações cria-se e recria-se a hegemonia cultural”
Concepções de hegemonia:
- Relações de poder
- Classe hegemônica dirige a sociedade.
Hegemonia proposta: não confere poderes exclusivos à classe dominante.
Assimilação, sobreposição de poderes, consenso.
“Quem quer que controle a mídia, controla também a cultura” (Ginsberg)
A televisão é um meio de manifestações culturais de todos os tipos, o que favorece e colabora com algumas classes hegemônicas, que estão em destaque na mídia. Da mesma forma, pode favorecer classes não hegemônicas através de campanhas ou mesmo novelas, tornando essas culturas mais acessíveis e melhor compreendidas pelas massas.
O poder não pode ser visto como um sistema monolítico, onde apenas uma classe dominante comanda todas as outras classes. O sistema dominante não pode impor tudo aos dominados, pois os dominados possuem o poder da reação, ainda que tenha força inferior.
Quando instituições sociais trabalham juntas podem reforçar poder atuando em conjunto.
A cultura popular não é pura, pois é massificada pelo trilhar histórico da própria cultura.
A mídia é uma das peças do processo de massificação. É conseqüência da massificação e não a causa. O público massificado veio antes.
O preconceito à massificação deve-se a uma intolerância à própria cultura popular. Há rejeição pelo fato de classes em desvantagem social terem acesso aos mesmos bens e serviços que a classe “intelectual” tem.
Os estudos tem como principais tópicos a ressaltar “quais mediações são preponderantes na definição do comportamento dos vários grupos de consumidores, o que é feito com as mensagens da mídia e qual é a participação dela na composição dos hábitos e atitudes dos cidadãos.”
Questões levantadas:
1 – O conceito de que o indivíduo aceita receber a mensagem transmitida pela televisão da maneira como ela realmente é muda com a evolução tecnológica e acesso à informação?
2- Os meios de comunicação criam novas culturas?
Porque existem tão poucas Teorias da Comunicação?
Resenha: Porque existem tão poucas Teorias da Comunicação?
Charles R. Berguer
O estudo da comunicação humana vêm crescendo ao longo das últimas décadas, principalmente sobre temas metateóricos e tem como objetivo facilitar e organizar esse campo de estudo.
Na década de 70, Cushman, Pearce entre outros se dedicaram nas leis gerais, sistemas e abordagens para o estudo da comunicação. Já na década de 80, os estudiosos se esforçaram para negociar paradigmas para aprofundarem os temas (Devin, Grossberg).
Definir o campo da comunicação se torna preocupante, pois, seu avanço e aumento de sub-áreas e disciplinas têm aumentado consideravelmente nesse período. A fragmentação do campo aumenta conforme se expande, assim como a especialização. Dessa forma tornam-se necessários critérios de avaliação teóricos que acompanhem o processo de expansão da área.
As diversas áreas da comunicação são singulares, porém há uma relação entre elas onde pode haver um intercâmbio ou um maior comércio de idéias. Para isso torna-se necessário um corpo teórico comum que unifique as pesquisas, assim como maior atividade teórica dos pesquisadores.
“É mais fácil resolver os problemas quando suas causas são conhecidas”
Existem algumas sub-áreas que, apesar de um considerável desempenho teórico, não conseguiram transpor a barreira do seu campo, ou seja, não houve alcance transdisciplinar. Ex: Construtivismo (Applegate, 1990), a administração coordenada de sentido (Pearce & Cronen, 1980). O ideal seria que os papéis de teórico e pesquisador fossem desempenhados pela mesma pessoa, porém com critérios para que não haja uma avalanche de informações inúteis.
No contexto histórico, observa-se que os principais teóricos e “pais fundadores” da comunicação são pesquisadores de áreas como psicologia (Hovland e Lewin), ciências políticas (Laswell) e sociologia (Lazarsfeld), mas que apesar de não serem pesquisadores de comunicação exercem bastante influência nos atuais pesquisadores (jornalismo e linguagem).
“A comunicação é uma encruzilhada acadêmica por onde muitos passam, mas poucos permanecem” (Schramm)
Uma das deficiências nos estudos de comunicação é que os pesquisadores ao invés de focarem suas pesquisas no próprio campo da comunicação, buscam teóricos de campos afins para auxiliar no entendimento. Essa perambulação interdisciplinar, apesar de contribuir para a pesquisa, acaba ofuscando o entendimento da área de comunicação. O foco deve estar sempre na comunicação e não o contrário.
Alguns pesquisadores ao longo do processo histórico definiram a comunicação como uma ciência social aplicada, ou seja, a aplicação de teorias desenvolvidas em outras disciplinas que são práticas. Dessa forma, o estudo das teorias de comunicação ficam de lado, tornando inútil o desenvolvimento de teorias.
A carência no desenvolvimento do campo se dá também pelo fato de que nos últimos trinta anos a pesquisa em comunicação foi apropriada pelos departamentos de jornalismo e linguagem. Os estudantes de comunicação têm desenvolvido mais habilidades práticas do que pesquisa e dessa forma são vistos, em sua maioria, como fornecedores de habilidades comunicacionais. A criação de textos com qualidade e reconhecimento acadêmico auxiliam muito no processo de novas teorias, mas não deve-se ficar apenas na introdução e sim desenvolver novas idéias a partir destas introduções ao invés de simplesmente reescrever o que antigos teóricos já desenvolveram. São necessários novos insights.
Há também uma obsessão metodológica que pode gerar conseqüências negativas caso não aplicadas de forma equilibrada. Os cursos focam tanto em aplicação de metodologias de coletas e análise de dados, que acabam deixando de lado outros cursos que contribuem de forma significativa no processo de construção de teorias. Além do que, muitos pesquisadores em comunicação, principalmente os que têm pesquisas financiadas, acredita que terão resultado focando no método e não na criação de teoria. Esses geralmente têm como objetivo a resolução de problemas aplicados.
Entre os pesquisadores e teóricos há certa resistência em arriscar-se com novas teorias. O fato é que todas as teorias estão sujeitas a serem falíveis quando são confrontadas com outras. Por isso nem todos arriscam, preferindo verificar teorias de outros. Porém todas as teorias, por mais implausíveis que sejam acabam dando oportunidade para que teorias mais abrangentes sejam criadas. É importante ter ciência da falibilidade das teorias e estar pronto para possíveis erros, sem frustrações.
Os estudantes de pós-graduação geralmente têm aversão ao risco, preferindo se especializar no ensino de habilidades de comunicação, atividades de consultoria organizacional ou se tornarem pesquisadores de mercado, desvalorizando o desenvolvimento teórico. Entre esses estudantes, certamente existem aqueles que são aptos no desenvolvimento de teorias, mas não querem correr risco de serem subjugados pelas suas idéias.
Algumas considerações foram apontadas como possíveis paliativos a favor do desenvolvimento e criação das teorias.
A primeira delas é que a construção da teoria pelos estudantes deve ocorrer antes da aquisição de instrumentos metodológicos. A metodologia é importante no processo, porém o desenvolvimento e a explicação de constructos na sua área de especialização devem ser o foco principal da pesquisa. A atividade criativa deve ser priorizada para que não desenvolvam casos de obsessão metodológica.
Os critérios de reconhecimento de pesquisas devem priorizar as que podem contribuir substancialmente, indo além. Devem ter maior valor as pesquisas que ajudam no avanço das teorias da comunicação e não as que se limitam em considerações metodológicas. Não se deve levar em conta a quantidade de pesquisa produzida, mas na qualidade dessas pesquisas. Assim como premiações de associações nacionais devem reconhecer as contribuições acadêmicas mais bem articuladas.
Os relatórios de pesquisa na área de comunicação mostram que existem poucas questões sendo desenvolvidas por vários grupos. Muitas vezes uma mesma questão é desenvolvida por vários grupos o que pode limitar o campo de pesquisa. É necessário e efetivo o aumento no conjunto de questões, para que exista um avanço teórico.
segunda-feira, 21 de março de 2011
La experiencia filosófica de la India ~ Raimon Panikkar
Resenha
Prefácio: Karma-Gnôsis
No prefácio do livro “La experiência filosófica de La índia” o autor descreve resumidamente o conteúdo do livro, abordando aspectos relevantes e diferenças entre a cultura oriental e ocidental.
A interculturalidade (encontro de culturas), presenciada desde os tempos antigos, se torna cada vez mais freqüente no mundo globalizado. O encontro entre diferentes culturas pode ter um resultado positivo ou negativo, dependendo da finalidade e do respeito de uma cultura em relação à outra. Após a Segunda Guerra, os ocidentais começaram a se desapegar um pouco dos seus mitos, dando abertura para novas filosofias, entre elas a oriental. Para o autor, “cada cultura es una galaxia con vida propia”, desacreditando que a transculturalidade possa existir, visto que cada cultura tem características próprias que não podemos encontrar em outras. A interculturalidade é vista como algo positivo quando reconhece as diferenças, harmonizando para que haja um crescimento e entendimento entre as culturas.
A cultura ocidental é representada pela gnôsis (teoria) e a oriental pela karma (práxis). Quando o autor utiliza o neologismo karma-gnôsis, o faz para representar a junção entre as duas características, equilibrando as relações. Numa relação não dualista, uma não pode existir sem a outra, assim como o oriente (luz matutina) não pode existir se não há um ocidente (luz vespertina) e vice-versa. É como um barco sobre as ondas do mar, mas quem está no comando da direção, somos nós.
Filosofia e sabedoria também caminham juntas, tal como karma-gnôsis. O filósofo ama a sabedoria e faz dela sua fonte de conhecimento. Tendo conhecimento da verdade sobre algo, não cessa seu interesse, querendo sempre novas verdades e essas verdades perduram por séculos. “No se puede conocer sin amar, ni amar sin conocer”.
Pela experiência advaita (trindade), o dualismo entre a teoria e práxis não incluía o amor, que faz parte da filosofia oriental.
Por daimôn, uma das palavras que o autor cogitou utilizar no título do livro, entende-se divindade, espírito, vida, entre outras definições. Conforme as circunstâncias pode ser interpretada como “bem”ou “mal”. A mesma palavra já foi usada de forma negativa na antiguidade, porém está mais próximo de espírito, inspiração. Experiência foi a palavra escolhida no título, pois define mais precisamente o contato imediato com a realidade através dos sentidos. Segundo a filosofia indiana, “toda filosofia se basea en la experiencia”. Além disso, a experiência é pessoal, diferenciando de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.
“Todo el mondo sabe que arroz no significa lo mismo para un estómago hambriento que para uno satisfecho”
“Justicia no tiene el mismo sentido para un prisionero que para um ciudadano sin conflictos com la sociedad”.
A ciência que é fortemente defendia no ocidente, muitas vezes classifica a verdade com conceitos reduzidos e “imutáveis”, como 2 + 3 são 5 e nada além disso. Os conceitos são úteis nas classificações, que são objetivas. Essa é a ciência moderna.
Para a filosofia indiana, a experiência não é conceitual, não pode ser definida enquanto experiência e não pode se repetir.
Prefácio: Karma-Gnôsis
No prefácio do livro “La experiência filosófica de La índia” o autor descreve resumidamente o conteúdo do livro, abordando aspectos relevantes e diferenças entre a cultura oriental e ocidental.
A interculturalidade (encontro de culturas), presenciada desde os tempos antigos, se torna cada vez mais freqüente no mundo globalizado. O encontro entre diferentes culturas pode ter um resultado positivo ou negativo, dependendo da finalidade e do respeito de uma cultura em relação à outra. Após a Segunda Guerra, os ocidentais começaram a se desapegar um pouco dos seus mitos, dando abertura para novas filosofias, entre elas a oriental. Para o autor, “cada cultura es una galaxia con vida propia”, desacreditando que a transculturalidade possa existir, visto que cada cultura tem características próprias que não podemos encontrar em outras. A interculturalidade é vista como algo positivo quando reconhece as diferenças, harmonizando para que haja um crescimento e entendimento entre as culturas.
A cultura ocidental é representada pela gnôsis (teoria) e a oriental pela karma (práxis). Quando o autor utiliza o neologismo karma-gnôsis, o faz para representar a junção entre as duas características, equilibrando as relações. Numa relação não dualista, uma não pode existir sem a outra, assim como o oriente (luz matutina) não pode existir se não há um ocidente (luz vespertina) e vice-versa. É como um barco sobre as ondas do mar, mas quem está no comando da direção, somos nós.
Filosofia e sabedoria também caminham juntas, tal como karma-gnôsis. O filósofo ama a sabedoria e faz dela sua fonte de conhecimento. Tendo conhecimento da verdade sobre algo, não cessa seu interesse, querendo sempre novas verdades e essas verdades perduram por séculos. “No se puede conocer sin amar, ni amar sin conocer”.
Pela experiência advaita (trindade), o dualismo entre a teoria e práxis não incluía o amor, que faz parte da filosofia oriental.
Por daimôn, uma das palavras que o autor cogitou utilizar no título do livro, entende-se divindade, espírito, vida, entre outras definições. Conforme as circunstâncias pode ser interpretada como “bem”ou “mal”. A mesma palavra já foi usada de forma negativa na antiguidade, porém está mais próximo de espírito, inspiração. Experiência foi a palavra escolhida no título, pois define mais precisamente o contato imediato com a realidade através dos sentidos. Segundo a filosofia indiana, “toda filosofia se basea en la experiencia”. Além disso, a experiência é pessoal, diferenciando de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.
“Todo el mondo sabe que arroz no significa lo mismo para un estómago hambriento que para uno satisfecho”
“Justicia no tiene el mismo sentido para un prisionero que para um ciudadano sin conflictos com la sociedad”.
A ciência que é fortemente defendia no ocidente, muitas vezes classifica a verdade com conceitos reduzidos e “imutáveis”, como 2 + 3 são 5 e nada além disso. Os conceitos são úteis nas classificações, que são objetivas. Essa é a ciência moderna.
Para a filosofia indiana, a experiência não é conceitual, não pode ser definida enquanto experiência e não pode se repetir.
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